Questionamento e argumentação: a essência do fazer matemático

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Pense como você compartilharia com um amigo ideias que teve sobre algum projeto. Agora pense como você falaria isso para um cético, seria de um jeito diferente, certo? Nossos argumentos mudam quando conversamos com uma pessoa que questiona e duvida da validade de cada afirmação que fazemos.

O processo de questionamento e argumentação está na essência do fazer matemático. Ser um questionador ativo de suas hipóteses é importante para a construção de um pensamento profundo. Quando um matemático tenta provar uma conjectura (afirmação que ainda não se sabe se é verdadeira ou não) ele precisa buscar razões para validá-la, em seguida precisa justificar suas ideias, convencendo a si mesmo e aos outros, por meio de um encadeamento lógico de argumentos sólidos que comprovem sua afirmação.

Os matemáticos Burton, Manson e Stacey escrevem sobre os níveis de convencimento no livro “Thinking Mathematically” (Pensando Matematicamente): o nível mais fácil é o de convencer a si mesmo de alguma ideia, o próximo nível é o de convencer um amigo, e o mais difícil é o convencimento de um cético. Para convencer um cético é necessária uma argumentação mais forte. Pedir aos alunos para elaborarem justificativas convincentes para as suas ideias é uma maneira de encorajar o processo argumentativo na aprendizagem de matemática, e é uma estratégia utilizada pela professora Cathy Humphreys. Os alunos que estão fazendo o papel de céticos em uma discussão dizem coisas como: “Eu ainda não estou convencido que isso faz sentido.”; “Por que você utilizou esse método?”; “Por que isso funciona?”; “Você pode provar isso?”, estimulando os outros alunos a apresentarem razões completas e convincentes. 

Quando os estudantes discutem, apresentam seus argumentos e tentam convencer seus colegas de suas conclusões, eles têm a oportunidade de se aprofundarem ainda mais na compreensão dos conceitos. Desenvolver um pensamento cético, crítico e não tirar conclusões precipitadas rapidamente é importante para o desenvolvimento de um bom raciocínio matemático. 

Uma situação na qual é interessante pedir aos alunos que assumam o papel de céticos, é a resolução de problemas em que a solução é impossível - esse tipo é um dos meus preferidos das aulas da Roda. Esses problemas têm uma justificativa lógica para não terem solução. Não concluímos que um problema é impossível simplesmente porque tentamos resolver diversas vezes e não conseguimos. Identificar e justificar por que um problema não tem solução requer uma compreensão profunda da lógica por trás dele e é uma ótima oportunidade para que os alunos desenvolvam suas habilidades de argumentação.

O matemático Jordan Ellenberg conta, no livro “O Poder do Pensamento Matemático”, que certa vez recebeu um conselho popular do seu orientador de doutorado sobre a importância de sempre questionar suas certezas: “quando você estiver trabalhando em uma conjectura, deve tentar prová-la de dia e refutá-la à noite”. É importante sempre manter-se cético na investigação de um problema matemático e analisar suas afirmações criticamente, pois é muito fácil se convencer de suas próprias ideias. Quanto mais preparados para responder ao questionamento de um cético mais confiantes estaremos e mais profundamente teremos compreendido algo, não é mesmo? E isso é algo que extrapola a esfera da matemática e pode ser um bom processo para fortalecer a argumentação em discussões de qualquer área. “Será mesmo? Eu ainda não estou convencida!”

 

Laissa Valle - mestre em matemática e professora na Roda de Matemática

Como comecei a gostar de matemática

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Meu gosto pela matemática não começou nas salas de aula. Quando eu era adolescente, meus pais me presentearam com uma assinatura da revista Superinteressante. Assim que a revista chegava em casa, a primeira coisa que eu fazia era procurar a coluna de desafios matemáticos do professor Luiz Barco. Eram três problemas que envolviam raciocínio lógico, números, pensamento geométrico etc. Sempre apresentados de forma interessante e criativa, eram desafios que, muitas vezes, permaneciam por dias no meu pensamento.

Este tipo de desafio matemático, juntamente com vários jogos e também puzzles como KenKen e Sudoku, compõem a chamada "matemática recreativa": atividades que exigem as mesmas habilidades lógicas e dedutivas da matemática, mas sem a necessidade do conhecimento de conceitos matemáticos avançados. 

Nessa época, dois autores me marcaram. O primeiro foi Martin Gardner, autor de diversos livros que inspiraram gerações de leitores. Durante 25 anos, publicou sua coluna Mathematical Games, na revista Scientific American apresentando diversões matemáticas, truques de magia e desafios lógicos. Nas palavras do matemático Ronald Graham: “Martin Gardner transformou milhares de crianças em matemáticos, e milhares de matemáticos em crianças”. Importante, não?

O segundo autor que marcou minha adolescência foi Malba Tahan. Algumas pessoas não sabem, mas Malba Tahan é um pseudônimo do extraordinário professor brasileiro Júlio César de Mello e Souza. O seu livro mais famoso, O homem que calculava, publicado em 1938 e ainda em catálogo, já foi traduzido para doze idiomas e vendeu mais de um milhão de exemplares. Júlio César estudou a cultura árabe por sete anos para poder criar de forma convincente as aventuras e proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir, na Bagdá do século XIII. Ele explora o natural interesse das crianças pelo lúdico e pela história para apresentar problemas matemáticos. O resultado é incrível! Quem ainda não leu este livro, pode incluí-lo em sua lista.

A matemática recreativa está, muitas vezes, mais próxima do trabalho de um matemático do que os exercícios numéricos que normalmente associamos com a matéria. Os problemas propostos por autores como Gardner, sempre apresentados em contextos interessantes, podem ser bastante desafiadores. Ao tentar resolvê-los trabalhamos como um matemático que se depara com um problema novo, ainda sem solução. Pensamos, testamos, investigamos diferentes caminhos, discutimos com colegas e, muitas vezes, não conseguimos encontrar uma solução de imediato.

Penso que essa experiência, tão marcante na minha adolescência, foi a semente da ideia da Roda de Matemática. A matemática é uma matéria com inúmeras possibilidades para ser apresentada e os livros de matemática recreativa são uma ótima ferramenta de aprendizado e encantamento pela matéria. Isso é o que mais queremos na Roda: encantar nossos alunos pela incrível experiência matemática.


Gustavo Aleixo - Co-fundador da Roda de Matemática.

Os números da cidade

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Algumas semanas atrás, conversamos aqui no blog sobre a importância de se brincar com os números na infância. No entanto, essa interação com os números pode (e deve!) ir muito além dos primeiros anos de vida. Desde os pequenos, até os mais velhos: todos podem se divertir com bons passatempos numéricos. 

Eu sempre adorei esse tipo de brincadeira. Uma das minhas favoritas começou num ponto de ônibus da Avenida Rebouças, quando passou um 8705-10 e um amigo me desafiou a chegar no número 10 com o 8, o 7, o 0 e 5 nessa ordem. Fácil, 8 + 7 + 0 - 5 = 10. Logo em seguida começamos a puxar na cabeça outras linhas de ônibus conhecidas:

7725-10: (7 / 7) x 2 x 5 = 10

7411-10: 7 + 4 - 1 x 1 = 10

8019-10: (8 x 0) + 1 + 9 = 10

8705-51: (8 x 7) + 0 - 5 = 51

Desse dia em diante, todo ônibus era um desafio. Alguns são mais difíceis e exigem mais criatividade, como o interessantíssimo 7002-10 que eu deixo aqui para vocês pensarem. Para as linhas que possuem letras, eu costumo substituí-las por 5, uma escolha que foi feita de maneira aleatória. Assim, o 177H-10, por exemplo, virou 0 1 + 7 + 7 - 5 = 10. Você pode escolher o seu número coringa para substituir as letras. Mas se quiser um desafio ainda maior, pode tentar descobrir por quais algarismos essa letra pode ser substituída.

Algarismos diferentes para o 177H-10:

1770-10: (17 - 7) + 0 = 10

1771-10: (17 - 7) x 1 = 10

1772-10: (17) + 7 + 2 = 10

1773-10: (17) x 7 + 3 = 10

1774-10: ((-1)7) + 7 + 4 = 10

1775-10: 1 + 7 + 7 - 5 = 10

1776-10: Ainda não consegui, mas fica o desafio!

1777-10: -1 + (77/7) = 10

1778-10: 1 + (7/7) + 8 = 10

1779-10: 1 - 7 + 7 + 9 = 10

Infelizmente o número de linhas na cidade de São Paulo é muito limitado, então comecei a brincar com as placas de carro também. O objetivo é sempre chegar em 10 com os quatro números da placa. Vale usar o que quiser - adição, subtração, multiplicação, divisão, e o que mais você souber (até os logaritmos já ajudaram em algumas placas que pareciam impossíveis). O limite é a nossa imaginação ;-)

O raciocínio numérico é algo que sempre pode ser desenvolvido. Não é binário, do tipo “tem” ou “não tem”. É crescente e sem uma limitação final - o nível de desenvolvimento depende apenas do quanto nos esforçamos para atingir patamares ainda mais elevados. Mais ainda, brincadeiras desse tipo são boas alternativas para deixar a cabeça ativa: manter boas atividades intelectuais é um ótimo caminho para nutrir um cérebro saudável durante toda a vida. Que tal começar lançando o desafio aí em casa?

Jean Rocatelli - graduado e mestrando em matemática (IME-USP) e professor da Roda de Matemática.




Esforço produtivo - o que tem por trás das nossas aulas?

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Em plena Quarta Revolução Industrial, em que a robótica e a inteligência artificial avançam como nunca, em que a informação está na ponta dos dedos de (quase) todos, em que empregos antes impensados surgem a cada dia, quais ferramentas serão essenciais para nossas crianças e jovens?

O relatório do Fórum Econômico Mundial de 2016, listou as principais habilidades que serão valorizadas pelo mercado de trabalho num futuro próximo. Estas habilidades são centrais no trabalho que desenvolvemos na Roda de Matemática:

  • Capacidade de resolução de problemas complexos; 

  • Pensamento crítico (o pensamento estruturado, a capacidade de comunicação clara de suas ideias, habilidade de fazer as perguntas certas, de reconhecer o problema atrás do problema e de olhar para uma questão sob diferentes perspectivas);

  • Criatividade;

  • Coordenação das próprias ações;

  • Inteligência emocional;

  • Capacidade de julgamento e de tomada de decisões; 

  • Inclinação para ajudar os outros; 

  • Negociação; e

  • Flexibilidade cognitiva. 

Nas nossas aulas temos esforço produtivo, metodologias ativas, ensino afetivo, sempre tendo em mente que não existem cérebros matemáticos e que, portanto, todos podemos aprender em altos níveis (ideia central do Mindset da pesquisadora da Universidade de Stanford Carol Dweck).

Carol Dweck e Jo Boaler (também da Universidade de Stanford), de mãos dadas com as pesquisas em neurociência, nos mostram a importância do esforço para fortalecer nosso cérebro e fazê-lo crescer, criando conexões neurais mais fortes e duradouras. A valorização do esforço desconstrói a ideia de que determinadas matérias são para uns e não para outros. Ao empregar esforço para solucionar desafios difíceis, que em princípio achávamos que não conseguiríamos resolver, nos descobrimos potentes e capazes naquele assunto. 

Para que haja esforço produtivo é essencial que a metodologia seja ativa, ou seja, que o estudante passe a ser o principal agente responsável pela sua aprendizagem. Neste formato, o professor assume o papel de provocador e de observador ativo, fazendo sempre boas perguntas que possibilitem o aprofundamento do raciocínio e a consequente aprendizagem. Não entrega a resposta porque essa é uma descoberta que pertence ao estudante. Os alunos são expostos a desafios para serem investigados, explorados, testados e solucionados por eles próprios, ora pensando individualmente, ora trocando ideias e construindo soluções coletivamente. Nesta postura mais ativa há amplo espaço para o desenvolvimento de um raciocínio mais profundo e associativo. 

Se o conteúdo é desafiador e se o professor não ensina aos alunos as ferramentas de resolução, como garantimos que as crianças aceitarão se arriscar e se debruçar sobre o desafio? Criando um ambiente seguro e afetivo! 

Neste ambiente temos que garantir o tempo de pensar individual (para compreenderem do que trata o desafio e levantarem suas primeiras hipóteses). Isso transmite ao aluno a ideia de que o aprendizado é um processo, e que não conseguir entender de primeira, segunda ou terceira não quer dizer que ele não vá conseguir compreender aquele fundamento profundamente. Temos também que ouvir com genuíno interesse todos os raciocínios e hipóteses levantadas.

Outro ponto chave é trabalhar a formação do grupo, reconhecendo interesses comuns e necessidades distintas. Incentivar que as crianças recorram umas às outras para construírem coletivamente uma solução ou para compartilharem um caminho diferente (construindo, assim, a habilidade do real trabalho em equipe). 

Aqui na Roda as nossas crianças nos surpreendem a cada dia com a transformação positiva de suas posturas, se desenvolvendo, se aventurando e se apropriando dessas habilidades que serão essenciais para seus futuros. É possível criar ambientes propícios e muito positivos de aprendizagem. E é lindo de testemunhar!

Ligia Carvalho dos Santos Zorzo - Co-fundadora da Roda de Matemática 


A matemática é um dom?

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Mitos que permeiam a aprendizagem de matemática.

Será que para aprender matemática é preciso ter nascido com um gene matemático? Que é preciso ter um dom ou talento especial que somente algumas pessoas têm? Você já se questionou se matemática é para você ou se você é uma pessoa de humanas ou de exatas?

Modificar as visões sobre a matemática é um caminho para transformar positivamente a relação dos alunos com essa área do conhecimento - é o que defende a pesquisadora e educadora matemática Jo Boaler, referência para nós na Roda de Matemática. É importante repensar como as pessoas interagem com a matemática e desconstruir os mitos sobre a sua aprendizagem.

Crenças de que algumas pessoas são naturalmente boas em matemática e que outras não nasceram com a capacidade para aprendê-la estão muito presentes em nossa sociedade. Frequentemente, quando o assunto matemática surge nas rodas de conversa, presenciamos pessoas dizendo que são péssimas em matemática, que não se dão bem com os números ou que essa é uma matéria para gênios. O mesmo normalmente não acontece quando surgem nas conversas assuntos relacionados a literatura, geografia e história, por exemplo. É como se as pessoas, influenciadas por suas experiências pessoais, se rotulassem em relação à aprendizagem matemática e decidissem se podem ou não aprendê-la, como se essa fosse uma condição que não pode ser alterada.

Essas crenças fixas afastam muitas pessoas da matemática. No entanto, pesquisas da neurociência mostram que o cérebro é altamente modificável - indicando que as habilidades matemáticas podem ser desenvolvidas - e que não existe algo como um cérebro matemático, ou seja, as pessoas que se desenvolvem bem nessa área não nascem com características cerebrais que determinam seu bom desempenho na disciplina. Essas pesquisas indicam que num ambiente com estímulos adequados todos podem aprender matemática em qualquer nível.

Pesquisas da psicologia, realizadas por Carol Dweck, também associam as crenças que temos a respeito da nossa própria inteligência - se ela pode ser desenvolvida ou é algo que não pode ser modificado - aos impactos no nosso desenvolvimento. O que acreditamos acerca do nosso potencial altera a forma com que aprendemos. Essas pesquisas levaram Dweck a concluir que o sucesso profissional e acadêmico não depende apenas do desenvolvimento cognitivo, mas também do que se crê acerca de inteligência e aprendizagem.

A matemática é uma área do conhecimento que envolve raciocínio, interpretação, argumentação, criatividade, estabelecimento de conexões entre diferentes conceitos, identificação de padrões, resolução de problemas etc. Por vezes, ela é ensinada como uma série de métodos e procedimentos para realizar cálculos, mas o pensamento matemático é múltiplo, vai muito além das contas e é acessível a todos. Aqui na Roda a matemática é para todo mundo. Vamos juntos transformar a relação das pessoas com a matemática?

 

Laissa Valle - mestre em matemática e professora na Roda de Matemática

Como os matemáticos aprendem matemática?

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Pergunte a um matemático: qual a melhor forma de aprender matemática? Uma resposta recorrente será: fazendo matemática! E para um matemático, fazer matemática é investigar problemas, estabelecer relações lógicas, encontrar padrões, generalizar resultados.

A ideia de “aprender matemática fazendo matemática” não é nova. Os chamados Círculos de Matemática existem há mais de um século em países da Europa Oriental como Hungria e Rússia, países com enorme tradição matemática e berço de grandes matemáticos. Nestes Círculos, grupos de estudantes, liderados por um matemático, investigam problemas, trocam ideias, discutem possibilidades, ou seja, fazem matemática.

O matemático americano Paul Zeitz, um dos responsáveis por levar a cultura dos Círculos para os EUA, conta que quando fazia seu doutorado na Universidade de Berkeley (no fim dos anos 80), existia a percepção entre seus colegas americanos de que os alunos e professores vindos da Europa Oriental eram “simplesmente melhores” em um sentido: eram “apaixonados pela matemática”. A diferença não era em conhecimento ou inteligência, mas uma diferença cultural, uma paixão e intensidade nas discussões matemáticas. Conta que enquanto os seminários de professores americanos duravam uma hora, seminários organizados pelos russos ou romenos ocupavam tardes inteiras de argumentação. A origem dessa paixão? A experiência que tiveram quando jovens nos Círculos de Matemática.

Nas palavras de Zeitz: “Os Círculos de Matemática ensinam aos alunos habilidades como concentração, confiança e criatividade, não com instrução formal, mas fazendo matemática e observando os outros fazendo matemática. Os alunos aprendem que um problema que vale ser resolvido pode exigir mais que minutos, possivelmente horas, dias ou até anos de esforço. Eles trabalham em alguns dos problemas clássicos da cultura matemática e descobrem como esses problemas podem ajudá-los a investigar novos problemas. Aprendem a não desistir e como transformar erros em oportunidades para mais investigação. Uma criança em um Círculo de Matemática aprende a fazer exatamente o que um pesquisador matemático faz: ela faz pesquisa.”

O "currículo" dos Círculos é dominado por problemas e não por tópicos matemáticos específicos. Um problema, em contraste com um exercício, é uma questão matemática que não se sabe, pelo menos inicialmente, como abordar. Eles requerem investigação. Dessa forma, uma das principais características dos Círculos de Matemática é que os professores não estão lá para dar respostas aos problemas, mas sim, para motivar a investigação dos problemas com boas perguntas, para ouvir e discutir as ideias dos alunos.

Estas ideias são centrais no trabalho que fazemos na Roda de Matemática. Conversam diretamente com nossas missões: cultivar o amor pela matemática e pelo desafio de resolver problemas. Mostram que paixão e intensidade são a base de qualquer realização. E ai? Vamos fazer matemática?

Gustavo Aleixo - Co-fundador da Roda de Matemática.

Quem é o número 4?

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Primeiro, eles contam de 1 a 3. Depois de um tempo, descobrem o 4. Vem então o 5, o 6, o 7… até o 10. Em um mundo absolutamente numérico, é natural que as crianças se familiarizem com o ato de contar e reconheçam os algarismos bem cedo. No entanto, isso significa que elas já compreendem esses números?

Na verdade, esse é apenas um primeiro passo de uma longa jornada. Saber contar verbalmente é, em um primeiro momento, apenas memorizar uma sequência de palavras. “Um”, “dois” e “três” são repetidos até que a criança perceba que essas palavras se relacionam e possuem uma ordem, como em uma música. A sequência de palavras “pato”, “travesseiro” e “uva” seria igualmente memorizada se repetida várias vezes em algum contexto.

Desse modo, precisamos ir além dessa memorização. Então, juntamente com os nomes desses números, apresentamos as quantidades.

“Um gato”

“Dois olhos”

“Três brinquedos”

Nessa hora, damos mais um passo! As crianças começam assim a reconhecer e nomear a característica quantidade de diferentes conjuntos. Conseguem então contar os brinquedos, as pessoas em uma foto e os dedos das mãos (dedos que serão recursos importantes nessa descoberta numérica).

Com isso, a contagem vai cada vez mais longe, caminhando para o 20, depois para o 100. Quantidades muito grandes viram o “mais de mil”. Mas mesmo com o reconhecimento de grandes números, ainda falta um passo importante a ser dado: conhecer esses números de uma maneira significativa e diversa. O 4 é o 3+1, o 2+2, o 10-6 e muitas outras coisas. Também pode ser uma medida (4 metros ou 4 quilos), pode ser uma quantidade (4 bolinhas), um código (internet 4G)... pode até mesmo ter representações distintas, como IV ou quatro pauzinhos. Tomar posse de um número é reconhecê-lo em diferentes contextos e conseguir manipulá-lo de maneira livre, sem se preocupar com a memorização de regras e procedimentos.

E o que podemos fazer para incentivar essa construção numérica rica em significados e relações? Brincar! Quando escondemos 4 objetos pela casa num caça ao tesouro, as crianças naturalmente contam quantos já foram encontrados e quantos ainda faltam. A dança das cadeiras pode estimular a subtração por 1. Os jogos de tabuleiro, em sua maioria, são também ótimos recursos - contar pontos, cartas, comparar resultados… um simples par ou ímpar já carrega muita matemática (e é até objeto de estudo em uma de nossas aulas de probabilidade).

Por isso, oferecer brincadeiras, desafios e investigações que incentivem o estabelecimento de relações entre as atividades cotidianas e os números é, segundo as pesquisas mais recentes em educação matemática, um caminho excepcional para o desenvolvimento do raciocínio numérico das crianças. É importante ir além da simples contagem para que nossos filhos e alunos tenham intimidade com os números, com aprendizados relevantes e conexões cerebrais mais potentes. Lembrando que você pode encontrar alguns desafios e sugestões de jogos aqui no blog!

Ser amigo do número 4, do 5 e de todos os demais pode ser um grande desafio, mas é fundamental para o aprendizado de cada indivíduo. Então fica a pergunta: qual vai ser a brincadeira numérica de hoje? :-)

Jean Rocatelli - graduado e mestrando em matemática (IME-USP) e professor da Roda de Matemática.


Dez dicas para as crianças aprenderem a amar a matemática

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1. Nunca diga às crianças que você também é ruim em matemática

Essa é uma dica da professora Jo Boaler da Universidade de Stanford. Dizer isso transmite uma mensagem de que "ser ou não ser bom" na matéria é uma condição inata e que não há o que possamos fazer para mudar isso. As pesquisas na área da neurociência vêm derrubando essas crenças. Nosso cérebro é plástico e, portanto, todos são capazes de aprender.

2. Apresente conceitos básicos desde cedo

Podemos apresentar ideias que serão fundamentais no entendimento da matemática desde cedo. Ideias de ordenação, contagem, quantidade, classificação, divisão de objetos, simetrias etc, podem facilmente serem inseridas em brincadeiras com crianças ainda bem pequenas. 

3. Desconstrua a ideia de que ser bom em matemática é ser rápido e fazer sem esforço

O que mais podemos incentivar em nossas crianças é que elas amem os desafios. Para isso elas têm que ter tranquilidade de que não serão valorizadas pela velocidade, e sim pela profundidade e diversidade de seus pensamentos.

4. Mostre a matemática como importante e interessante

Que tal apresentar um desafio lógico interessante no almoço de domingo? Ou contar para seus filhos como a matemática nos ajuda a entender o mundo em que vivemos? Ou como a matemática está por traz de toda a tecnologia que tem mudado nossas vidas? Serão momentos inspiradores para as crianças.

 5. Ressignifique o erro

Para que as crianças se permitam investigar e levantar hipóteses sobre problemas que, a princípio, elas não sabem resolver, é imprescindível que o erro seja visto como parte natural, indissociável desse processo. Aqui na Roda de Matemática, dizemos que os "erros são nossos amigos", e essa é uma mensagem muito libertadora.

6. Elogie a postura

Troque elogios que se refiram a condições teoricamente inatas, como ser brilhante, ser inteligente; por elogios relacionados à postura da criança: esforço, persistência, até a alegria que ela eventualmente demonstre pelo desafio mais difícil. Os resultados das pesquisas da professora Carol Dweck mostram que quando uma criança é elogiada pelo seu “brilhantismo”, ela tende a querer manter esse status e limita suas escolhas ao que ela já sabe.

7. Compre livros de matemática

Existe uma quantidade enorme de livros que apresentam a matemática de forma diversa e interessante. Para os pequenos, um exemplo que gostamos muito são os livros da coleção Tan Tan (Callis Editora). Para os mais velhos, livros de desafios, como o clássico “O Homem que Calculava” de Malba Tahan, serão fontes de aprendizado e diversão. As opções são muitas, se quiser mais dicas, escreve pra gente ;-) 

8. Valorize o difícil

É fazendo coisas que nos desafiam que realmente nos desenvolvemos e é na superação desses desafios que descobrimos o prazer pela aprendizagem. Quando perdermos o medo de encarar o difícil, descobrimos que podemos muito!

9. Jogue com seus filhos

Jogos são ótimas ferramentas para desenvolver o pensamento abstrato, o senso numérico, o pensamento estratégico e probabilístico. Isso tudo com muita diversão! A lista de opções aqui é grande, só cabe em outro post. 

10. Transmita a ideia de que aprender é um processo

Não compreender de primeira não quer dizer que a criança não será capaz de compreender profundamente aquele assunto. Aprender é um processo que requer tempo, erros, esforço, troca de ideias, persistência. Se não entendemos alguma coisa, não entendemos ainda!