Gustavo Aleixo

Como os matemáticos aprendem matemática?

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Pergunte a um matemático: qual a melhor forma de aprender matemática? Uma resposta recorrente será: fazendo matemática! E para um matemático, fazer matemática é investigar problemas, estabelecer relações lógicas, encontrar padrões, generalizar resultados.

A ideia de “aprender matemática fazendo matemática” não é nova. Os chamados Círculos de Matemática existem há mais de um século em países da Europa Oriental como Hungria e Rússia, países com enorme tradição matemática e berço de grandes matemáticos. Nestes Círculos, grupos de estudantes, liderados por um matemático, investigam problemas, trocam ideias, discutem possibilidades, ou seja, fazem matemática.

O matemático americano Paul Zeitz, um dos responsáveis por levar a cultura dos Círculos para os EUA, conta que quando fazia seu doutorado na Universidade de Berkeley (no fim dos anos 80), existia a percepção entre seus colegas americanos de que os alunos e professores vindos da Europa Oriental eram “simplesmente melhores” em um sentido: eram “apaixonados pela matemática”. A diferença não era em conhecimento ou inteligência, mas uma diferença cultural, uma paixão e intensidade nas discussões matemáticas. Conta que enquanto os seminários de professores americanos duravam uma hora, seminários organizados pelos russos ou romenos ocupavam tardes inteiras de argumentação. A origem dessa paixão? A experiência que tiveram quando jovens nos Círculos de Matemática.

Nas palavras de Zeitz: “Os Círculos de Matemática ensinam aos alunos habilidades como concentração, confiança e criatividade, não com instrução formal, mas fazendo matemática e observando os outros fazendo matemática. Os alunos aprendem que um problema que vale ser resolvido pode exigir mais que minutos, possivelmente horas, dias ou até anos de esforço. Eles trabalham em alguns dos problemas clássicos da cultura matemática e descobrem como esses problemas podem ajudá-los a investigar novos problemas. Aprendem a não desistir e como transformar erros em oportunidades para mais investigação. Uma criança em um Círculo de Matemática aprende a fazer exatamente o que um pesquisador matemático faz: ela faz pesquisa.”

O "currículo" dos Círculos é dominado por problemas e não por tópicos matemáticos específicos. Um problema, em contraste com um exercício, é uma questão matemática que não se sabe, pelo menos inicialmente, como abordar. Eles requerem investigação. Dessa forma, uma das principais características dos Círculos de Matemática é que os professores não estão lá para dar respostas aos problemas, mas sim, para motivar a investigação dos problemas com boas perguntas, para ouvir e discutir as ideias dos alunos.

Estas ideias são centrais no trabalho que fazemos na Roda de Matemática. Conversam diretamente com nossas missões: cultivar o amor pela matemática e pelo desafio de resolver problemas. Mostram que paixão e intensidade são a base de qualquer realização. E ai? Vamos fazer matemática?

Gustavo Aleixo - Co-fundador da Roda de Matemática.