Algumas semanas atrás, conversamos aqui no blog sobre a importância de se brincar com os números na infância. No entanto, essa interação com os números pode (e deve!) ir muito além dos primeiros anos de vida. Desde os pequenos, até os mais velhos: todos podem se divertir com bons passatempos numéricos.
Eu sempre adorei esse tipo de brincadeira. Uma das minhas favoritas começou num ponto de ônibus da Avenida Rebouças, quando passou um 8705-10 e um amigo me desafiou a chegar no número 10 com o 8, o 7, o 0 e 5 nessa ordem. Fácil, 8 + 7 + 0 - 5 = 10. Logo em seguida começamos a puxar na cabeça outras linhas de ônibus conhecidas:
7725-10: (7 / 7) x 2 x 5 = 10
7411-10: 7 + 4 - 1 x 1 = 10
8019-10: (8 x 0) + 1 + 9 = 10
8705-51: (8 x 7) + 0 - 5 = 51
Desse dia em diante, todo ônibus era um desafio. Alguns são mais difíceis e exigem mais criatividade, como o interessantíssimo 7002-10 que eu deixo aqui para vocês pensarem. Para as linhas que possuem letras, eu costumo substituí-las por 5, uma escolha que foi feita de maneira aleatória. Assim, o 177H-10, por exemplo, virou 0 1 + 7 + 7 - 5 = 10. Você pode escolher o seu número coringa para substituir as letras. Mas se quiser um desafio ainda maior, pode tentar descobrir por quais algarismos essa letra pode ser substituída.
Algarismos diferentes para o 177H-10:
1770-10: (17 - 7) + 0 = 10
1771-10: (17 - 7) x 1 = 10
1772-10: (17) + 7 + 2 = 10
1773-10: (17) x 7 + 3 = 10
1774-10: ((-1)7) + 7 + 4 = 10
1775-10: 1 + 7 + 7 - 5 = 10
1776-10: Ainda não consegui, mas fica o desafio!
1777-10: -1 + (77/7) = 10
1778-10: 1 + (7/7) + 8 = 10
1779-10: 1 - 7 + 7 + 9 = 10
Infelizmente o número de linhas na cidade de São Paulo é muito limitado, então comecei a brincar com as placas de carro também. O objetivo é sempre chegar em 10 com os quatro números da placa. Vale usar o que quiser - adição, subtração, multiplicação, divisão, e o que mais você souber (até os logaritmos já ajudaram em algumas placas que pareciam impossíveis). O limite é a nossa imaginação ;-)
O raciocínio numérico é algo que sempre pode ser desenvolvido. Não é binário, do tipo “tem” ou “não tem”. É crescente e sem uma limitação final - o nível de desenvolvimento depende apenas do quanto nos esforçamos para atingir patamares ainda mais elevados. Mais ainda, brincadeiras desse tipo são boas alternativas para deixar a cabeça ativa: manter boas atividades intelectuais é um ótimo caminho para nutrir um cérebro saudável durante toda a vida. Que tal começar lançando o desafio aí em casa?
Jean Rocatelli - graduado e mestrando em matemática (IME-USP) e professor da Roda de Matemática.