Meu gosto pela matemática não começou nas salas de aula. Quando eu era adolescente, meus pais me presentearam com uma assinatura da revista Superinteressante. Assim que a revista chegava em casa, a primeira coisa que eu fazia era procurar a coluna de desafios matemáticos do professor Luiz Barco. Eram três problemas que envolviam raciocínio lógico, números, pensamento geométrico etc. Sempre apresentados de forma interessante e criativa, eram desafios que, muitas vezes, permaneciam por dias no meu pensamento.
Este tipo de desafio matemático, juntamente com vários jogos e também puzzles como KenKen e Sudoku, compõem a chamada "matemática recreativa": atividades que exigem as mesmas habilidades lógicas e dedutivas da matemática, mas sem a necessidade do conhecimento de conceitos matemáticos avançados.
Nessa época, dois autores me marcaram. O primeiro foi Martin Gardner, autor de diversos livros que inspiraram gerações de leitores. Durante 25 anos, publicou sua coluna Mathematical Games, na revista Scientific American apresentando diversões matemáticas, truques de magia e desafios lógicos. Nas palavras do matemático Ronald Graham: “Martin Gardner transformou milhares de crianças em matemáticos, e milhares de matemáticos em crianças”. Importante, não?
O segundo autor que marcou minha adolescência foi Malba Tahan. Algumas pessoas não sabem, mas Malba Tahan é um pseudônimo do extraordinário professor brasileiro Júlio César de Mello e Souza. O seu livro mais famoso, O homem que calculava, publicado em 1938 e ainda em catálogo, já foi traduzido para doze idiomas e vendeu mais de um milhão de exemplares. Júlio César estudou a cultura árabe por sete anos para poder criar de forma convincente as aventuras e proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir, na Bagdá do século XIII. Ele explora o natural interesse das crianças pelo lúdico e pela história para apresentar problemas matemáticos. O resultado é incrível! Quem ainda não leu este livro, pode incluí-lo em sua lista.
A matemática recreativa está, muitas vezes, mais próxima do trabalho de um matemático do que os exercícios numéricos que normalmente associamos com a matéria. Os problemas propostos por autores como Gardner, sempre apresentados em contextos interessantes, podem ser bastante desafiadores. Ao tentar resolvê-los trabalhamos como um matemático que se depara com um problema novo, ainda sem solução. Pensamos, testamos, investigamos diferentes caminhos, discutimos com colegas e, muitas vezes, não conseguimos encontrar uma solução de imediato.
Penso que essa experiência, tão marcante na minha adolescência, foi a semente da ideia da Roda de Matemática. A matemática é uma matéria com inúmeras possibilidades para ser apresentada e os livros de matemática recreativa são uma ótima ferramenta de aprendizado e encantamento pela matéria. Isso é o que mais queremos na Roda: encantar nossos alunos pela incrível experiência matemática.
Gustavo Aleixo - Co-fundador da Roda de Matemática.