Levanta a mão quem já tremeu diante do convite para fazer algo novo, diferente, inesperado.
Os que me conhecem há pouco tempo podem achar que eu nunca tenha pertencido ao grupo dos que têm vontade de correr (bem rápido) de um desafio; talvez até imaginem uma Ligiazinha falante e desinibida na escola, proativa nas discussões em grupo e a primeira a levantar a mão pra compartilhar uma ideia com os colegas.
Então, não. Não mesmo. E vou compartilhar essa história porque meus medos me enchiam de vergonha e constrangimento, e por tempo demais eu acreditei que eu ERA medrosa e que, portanto, seria assim pra sempre.
Então, não de novo.
Na escola, em muitas situações, eu tremia como se estivesse em um avião com as portas abertas, com a obrigação de saltar. Quando eu era chamada para dar uma explicação na lousa, em frente a todos os colegas, me sentia tão ansiosa e apavorada que raramente conseguia explicar qualquer coisa - nada mais familiar para mim do que a sensação de "dar branco" na hora de apresentar um trabalho (por horas ensaiado na frente do espelho).
Por alguma razão enquanto criança eu via esse medo só em mim. Conforme cresci, fui vendo que inúmeras pessoas têm gatilhos que desencadeiam reações parecidas com as que eu tinha: vontade de fugir daquela situação, escapulir. E quando via o medo em outros, minha reação era tentar desconstruí-lo, mostrar para aquela pessoa do quanto ela era capaz. E esse exercício com outros me livrou da minha própria sentença.
Mas que medo é esse? E por que ele é tão comum? E, ainda, por que nos comportamos de forma involuntária, ficando desmemoriados e incapazes de raciocinar, ainda que sejamos eloquentes e profundos em outras situações?
Sabem quem explica? Sim, sim, a neurociência.
Vou começar pelo último ponto: por que "dá branco"? Porque a natureza é maravilhosa e nosso cérebro (reptiliano) tem regiões distintas que agem em situações distintas - e nas situações de perigo, áreas ligadas ao raciocínio e às memórias de trabalho são momentaneamente "desativadas", canalizando toda a energia para as redes neurais responsáveis pela sobrevivência, liberando hormônios que nos ajudam a, por exemplo, correr o mais rápido possível.
Mas não estamos em perigo quando vamos apresentar um trabalho escolar, ou fazer uma prova qualquer, certo? Mas se sentimos medo, ansiedade, nosso cérebro recebe a mesma mensagem de perigo, tal como estivéssemos cara a cara com um leão, e nesses momentos ficar raciocinando e ponderando variáveis não nos garante a sobrevivência. Por isso os circuitos neurais são interrompidos. Interrompidos! Você sabe uma porção de coisas, mas naquele momento as informações não circulam.
E por que tão comumente sentimos (ou sentíamos) medo quando estamos prestes a fazer algo novo, ou intelectualmente difícil? Porque por tempo demais fomos julgados por não acertar de primeira, por não sermos rápidos o suficiente, por corrermos o risco de perdermos nosso status de "brilhante", sermos desmascarados.
E daí a importância imensa de um bom ambiente de aprendizagem. Para que possamos nos lançar no mar de novas aprendizagens; para nos arriscarmos a fazer algo novo, não podemos achar que estamos em perigo. O contrário, temos que ter certeza de que o ambiente é seguro para essa aventura ser vivida no máximo do seu potencial. Se queremos garantir aprendizagem, aprofundamento e amadurecimento de raciocínio, investigação, troca de ideias, errar tem que estar na conta como parte desse processo.
Eu mesma fui me sentindo mais e mais forte como estudante quanto mais eu me permitia encontrar meus próprios processos, no meu próprio tempo.
E assim, com 17 anos estava cursando Direito. Com 22, formada e trabalhando. Depois, mestrado no exterior. Aos 30 me permiti mudar de profissão - prestei vestibular e recomecei. Tudo porque me descobri capaz.
Hoje tenho minha própria escola, onde é prioritário garantir esse ambiente afetivo e seguro de aprendizagem para nossas crianças, para que possam se reconhecer potentes desde já. E não há criança na Roda de Matemática que não se divirta no processo de investigação de um desafio difícil; e para se divertirem neste caminho, a primeira mensagem que internalizam é a de que os erros são, mesmo e de verdade, nossos amigos.
Ligia Carvalho dos Santos Zorzo - Co-fundadora da Roda de Matemática